Por Anderson Braga
A eleição para a Assembleia Legislativa de Alagoas terá, em 2026, uma característica que pode ser determinante para o resultado: embora estejam em disputa apenas 27 cadeiras, 138 candidatos foram registrados para concorrer ao cargo. São pouco mais de cinco postulantes por vaga.
Mais do que uma disputa individual entre candidatos, a eleição estadual será uma batalha entre estruturas partidárias. A força dos prefeitos, o desempenho dos candidatos ao governo e ao Senado, a capacidade de transferência de votos e a composição das chapas podem definir quem ocupará as últimas vagas da próxima legislatura.
O cenário atual aponta para uma vantagem do MDB, que reúne uma das maiores concentrações de candidatos competitivos. Mas a eleição está longe de ser decidida. O crescimento do PSDB, a reorganização do PP, a força do PL no eleitorado conservador e a presença da Federação Brasil, formada por PT, PCdoB e PV, criam uma disputa que pode produzir mudanças importantes na composição da Casa.
A fotografia eleitoral, neste momento, mostra um MDB favorito para continuar como principal força da Assembleia, mas também revela uma disputa cada vez mais apertada pelas cadeiras intermediárias.
MDB parte na frente, mas enfrenta uma guerra interna
O MDB é o partido que chega à eleição com a maior capacidade de formar uma bancada numerosa. A legenda reúne deputados com mandato, ex-deputados, prefeitos, ex-prefeitos e grupos políticos tradicionais espalhados por diferentes regiões de Alagoas.
O problema do MDB é justamente sua própria força.
A legenda possui muitos candidatos competitivos disputando votos dentro da mesma chapa. Isso significa que a eleição não será apenas uma batalha entre MDB e os demais partidos. Será também uma disputa interna entre os próprios emedebistas.
Marcelo Victor aparece como um dos nomes mais fortes da eleição. Presidente da Assembleia, ele construiu uma estrutura política que ultrapassa a simples votação pessoal e se apoia em alianças construídas ao longo de anos.
Alexandre Ayres, Ricardo Nezinho, Inácio Loiola, Fátima Canuto e Cibele Moura também entram na disputa com bases consolidadas.
Na segunda linha aparecem nomes como Dudu Ronalsa, Gilvan Filho, Gabi Gonçalves, Paulinho Mendonça, Francisco Tenório, Hugo Wanderley, Remi Calheiros e Guilherme Lopes merece atenção. Filho do prefeito de Penedo, Ronaldo Lopes, ele não possui uma votação anterior para deputado estadual que permita uma comparação direta. Seu principal ativo é a estrutura política que sustenta sua candidatura e a possibilidade de ampliar a representação do grupo de Penedo no Legislativo estadual.
Marcos Beltrão que é de uma família tradicional da política que conta com o apoio de prefeituras no litoral sul, perdeu apoio na cidade de Piaçabuçu mesmo com a vitória para prefeito do grupo político liderado por Djalma Beltrão, o que enfraqueceu um pouco sua candidatura na Região.
É justamente esse tipo de candidatura que pode alterar a disputa pelas últimas vagas.
Minha projeção, considerando a estrutura apresentada pelas chapas e o ambiente político atual, coloca o MDB em uma faixa de 12 a 15 cadeiras, com possibilidade de ultrapassar esse número em um cenário excepcionalmente favorável.
PP tenta transformar força de Arthur Lira em votos para a Assembleia
O PP entra em uma situação diferente da eleição de 2022.
Arthur Lira, que teve uma das maiores votações para deputado federal naquela eleição, agora disputa uma das duas vagas ao Senado. Na pesquisa Quaest divulgada nesta semana, ele aparece com 20%, numericamente à frente de Renan Calheiros, que tem 18%.
A candidatura de Lira cria um ativo importante para os candidatos estaduais do partido: uma estrutura política capaz de movimentar prefeitos, lideranças municipais e eleitores em diferentes regiões.
Fernando Pereira, Rose Davino, Ceci de Atalaia e Angela Garrote aparecem entre os nomes que podem concentrar maior votação.
O PP, entretanto, possui uma chapa menor e precisa transformar sua força política em desempenho proporcional.
A projeção mais plausível é de 3 a 5 cadeiras.
O partido poderá ser uma das principais forças capazes de impedir uma concentração ainda maior do MDB.
PSDB cresce com JHC e transforma a eleição proporcional
O PSDB é talvez o partido que mais ganhou relevância política durante a montagem do cenário eleitoral.
A razão é simples: JHC deixou a Prefeitura de Maceió para disputar o governo e aparece praticamente empatado com Renan Filho na corrida pelo Palácio República dos Palmares.
A pesquisa Quaest realizada entre 20 e 23 de agosto mostra Renan Filho com 42% e JHC com 40%. A margem de erro é de aproximadamente três pontos percentuais, o que caracteriza empate técnico.
Esse cenário tem reflexo direto na eleição proporcional.
Se JHC permanecer competitivo, os candidatos do seu grupo poderão receber votos associados à candidatura majoritária. E, entre eles, o PSDB possui nomes com estrutura própria.
Tenorinho Malta aparece como um dos candidatos mais experientes. Lucas Barbosa representa uma das principais novidades.
O filho do prefeito de Arapiraca, Luciano Barbosa, entra na disputa com uma vantagem que muitos candidatos novos não possuem: uma estrutura política construída antes mesmo de sua estreia eleitoral para a Assembleia.
Arapiraca será um dos principais territórios dessa disputa.
Se a candidatura de JHC crescer, a chapa tucana pode chegar a três cadeiras e, em um cenário excepcional, ameaçar uma quarta.
PL terá disputa interna entre Cabo Bebeto e Leonardo Dias
No PL, a eleição estadual passa principalmente por dois nomes: Cabo Bebeto e Leonardo Dias.
Os dois possuem eleitorados identificados e podem concentrar grande parte dos votos da legenda.
Cabo Bebeto busca a manutenção do mandato. Leonardo Dias, por sua vez, leva para a disputa estadual uma base política consolidada em Maceió e entre eleitores identificados com a direita.
A dificuldade está na matemática da chapa.
Uma legenda pode ter dois candidatos extremamente fortes e, ainda assim, eleger apenas um deputado se os demais integrantes não produzirem votação suficiente para elevar o desempenho coletivo.
O PL, portanto, tem condições de conquistar uma ou duas cadeiras.
O desempenho nacional da direita também será observado. A passagem de Flávio Bolsonaro por Alagoas nesta semana evidenciou uma situação peculiar: JHC e Arthur Lira, embora aliados de forças que integram a mesma composição política estadual, mantiveram distância de uma manifestação explícita de apoio ao presidenciável.
Essa circunstância pode ter reflexos sobre as campanhas proporcionais, especialmente porque candidatos locais precisam equilibrar o eleitorado bolsonarista com a realidade eleitoral alagoana.
Federação Brasil aposta na força de Lula e do grupo governista
PT, PCdoB e PV não podem ser analisados isoladamente. Os três partidos estão reunidos em uma federação e, portanto, disputam conjuntamente as vagas proporcionais.
Ronaldo Medeiros e Silvio Camelo aparecem como nomes de maior peso, enquanto Marcos Barbosa, Breno Albuquerque e Teca Nelma também podem entrar na disputa pelas cadeiras.
A federação tem uma vantagem política: está inserida no campo que apoia Renan Filho e conta com a força eleitoral do presidente Lula em Alagoas.
Na pesquisa Quaest, Lula aparece à frente de Flávio Bolsonaro no estado, com 44% contra 29%.
Esse dado não significa automaticamente votos para os candidatos estaduais, mas mostra que existe um eleitorado potencialmente favorável ao campo governista.
A projeção é de duas a três cadeiras.
A batalha pelas últimas vagas
É nas últimas posições que a eleição deve ficar mais imprevisível.
Candidatos com 20 mil, 25 mil ou 30 mil votos podem ter destinos diferentes dependendo da chapa pela qual concorrem. Um candidato pode fazer uma votação considerada alta e ficar de fora, enquanto outro, em uma legenda com desempenho coletivo mais eficiente, pode conquistar uma cadeira com votação inferior.
Essa é a característica mais importante da eleição proporcional.
Por isso, não basta perguntar quem será o candidato mais votado. A pergunta decisiva será: qual partido conseguirá transformar sua votação total em maior número de cadeiras?
O quociente eleitoral, os quocientes partidários e a distribuição das sobras terão papel decisivo na definição das últimas vagas.
É nesse ponto que candidaturas novas, como Guilherme Lopes e Lucas Barbosa, precisam ser observadas.
Eles não carregam necessariamente uma votação anterior que permita medir seu desempenho. Em compensação, chegam às urnas apoiados por estruturas políticas relevantes.
Arapiraca pode ser decisiva
A eleição proporcional de 2026 terá um dos seus principais campos de batalha no Agreste.
Arapiraca possui peso eleitoral suficiente para influenciar diretamente a composição da Assembleia. A presença de Lucas Barbosa pelo PSDB coloca o grupo do prefeito Luciano Barbosa no centro dessa disputa.
Do outro lado, Ricardo Nezinho continua sendo uma das principais referências eleitorais da região.
O resultado de Arapiraca poderá determinar não apenas quem será eleito, mas também quantas cadeiras algumas legendas conseguirão conquistar.
A disputa no município é, portanto, maior do que uma simples briga local. Ela faz parte da disputa estadual pelo controle político da Assembleia.
O fator governo
A eleição para deputado estadual não acontece isoladamente.
Renan Filho e JHC chegam ao início da campanha em situação de empate técnico. A pesquisa Quaest mostra 42% para Renan e 40% para JHC, com 10% de eleitores indecisos.
Isso significa que ainda existe uma parcela relevante do eleitorado que pode mudar o desenho da eleição.
Se Renan Filho ampliar sua vantagem, o MDB e os partidos aliados tendem a se beneficiar.
Se JHC crescer e ultrapassar o adversário, PSDB e aliados poderão ganhar força na disputa proporcional.
Essa relação não é automática, mas, em uma eleição na qual 138 candidatos disputam 27 cadeiras, qualquer transferência significativa de votos pode mudar o resultado das últimas vagas.
O cenário de hoje
A análise das chapas permite desenhar uma fotografia provisória da disputa:
MDB: 12 a 15 cadeiras.
PP: 3 a 5 cadeiras.
Federação Brasil: 2 a 3 cadeiras.
PSDB/Cidadania: 2 a 3 cadeiras, com possibilidade de crescimento.
PL: 1 a 2 cadeiras.
Solidariedade: 0 a 1 cadeira.
PRD: 0 a 1 cadeira.
União Brasil: 0 a 1 cadeira.
Democracia Cristã: 0 a 1 cadeira.
As demais legendas enfrentam uma tarefa significativamente mais difícil para alcançar uma cadeira.
Essas faixas não representam uma previsão matemática do resultado final. São uma leitura do equilíbrio de forças neste momento, considerando composição das chapas, estrutura política, mandatos anteriores e o cenário majoritário.
Uma eleição ainda aberta
Alagoas chega à campanha com menos candidatos proporcionais do que em 2022. Naquele ano, foram 466 candidatos a deputado federal e estadual; em 2026, são 246, uma redução de 47,2%. Para deputado estadual, são 138 concorrentes para 27 cadeiras.
A redução no número de candidaturas não significa uma eleição fácil.
Ao contrário. Com menos nomes competitivos, a tendência é de maior concentração de votos nas chapas estruturadas.
O MDB continua sendo o favorito para comandar a maior bancada da Assembleia, mas o tamanho dessa bancada dependerá do desempenho de Renan Filho e da capacidade dos candidatos emedebistas de dividir entre si uma quantidade enorme de votos.
O PP aparece como principal força alternativa. O PSDB surge como a chapa que mais pode crescer caso JHC mantenha a disputa pelo governo equilibrada. O PL concentra suas esperanças em Cabo Bebeto e Leonardo Dias, enquanto a Federação Brasil aposta na força do campo governista e do eleitorado lulista.
No fim, a eleição deverá ser decidida menos pelo candidato que fizer a maior votação e mais pela capacidade de cada grupo organizar votos, reunir lideranças municipais e transformar força política em cadeiras.
É justamente por isso que, faltando pouco mais de um mês para as urnas, a composição da próxima Assembleia Legislativa ainda está longe de estar definida. Com 27 vagas e 138 candidatos, cada ponto de crescimento ou queda das candidaturas majoritárias poderá alterar a fotografia da disputa proporcional.


