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EUA sinalizam interesse em minerais estratégicos do Brasil, mas governo brasileiro adota cautela diante de tensões comerciais

Por Anderson Braga

Em meio a um cenário de tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos, o governo americano manifestou interesse em firmar acordos para aquisição de minerais críticos e estratégicos brasileiros, como nióbio, lítio e terras raras — insumos essenciais para setores como energia, tecnologia e defesa. A sinalização partiu de Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada dos EUA em Brasília, durante reunião com o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), realizada na quarta-feira (24).

Segundo relato de Raul Jungmann, presidente do Ibram, Escobar ouviu de empresários do setor que eventuais negociações nesse campo dependem exclusivamente da União. “Foi demonstrado o interesse dos Estados Unidos nos chamados minerais críticos e estratégicos, mas deixamos claro que cabe ao governo decidir”, afirmou Jungmann. A posição foi imediatamente levada ao vice-presidente Geraldo Alckmin, que lidera as tratativas para evitar a aplicação de uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, prevista para entrar em vigor no próximo dia 1º de agosto.

Apesar do interesse americano, interlocutores do governo destacam que os EUA não sinalizaram formalmente que o acesso a esses minerais seria parte de uma eventual negociação sobre tarifas. Pelo contrário, a gestão do presidente Donald Trump teria vinculado qualquer avanço nas conversas comerciais ao tratamento judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro, tornando o diálogo mais delicado e politizado.

Ainda assim, especialistas apontam que o movimento americano não é inesperado. “Não surpreende que a descoberta de reservas de materiais críticos e estratégicos em território brasileiro desperte o interesse de potências mundiais”, observa Rubens Duarte, professor da ECEME e coordenador do Labmundo. “A exploração desses recursos pode entrar como moeda de troca em negociações com os EUA, mas o Brasil deve avaliar com cautela os impactos políticos e econômicos.”

Recursos estratégicos sob pressão geopolítica

O Brasil detém vastas reservas minerais que despertam crescente interesse global. Dados do Guia para o Investidor Estrangeiro em Minerais Críticos 2025, do Ministério de Minas e Energia, revelam que o país concentra 94% das reservas mundiais de nióbio, 19% das terras raras e 4,9% do lítio global. No entanto, a produção ainda é limitada, especialmente no caso das terras raras, onde o Brasil responde por apenas 0,02% da oferta mundial.

Em 2024, as exportações minerais brasileiras somaram cerca de US$ 43,4 bilhões (R$ 250 bilhões), com destaque para China (24%) e Alemanha (12%) como principais destinos. Os Estados Unidos, por ora, figuram como observadores e potenciais interessados.

Minas Gerais desponta como epicentro da mineração estratégica no país. O estado atraiu, até agora, mais de R$ 5 bilhões em investimentos. No caso do lítio, a expectativa é de que até 2030 os aportes cheguem a R$ 15 bilhões, consolidando o Vale do Jequitinhonha como polo promissor na produção nacional.

Entre o pragmatismo e a soberania

A legislação brasileira não permite a venda direta de minerais entre governos. Empresas estrangeiras, inclusive dos EUA, podem atuar no setor por meio de parcerias ou joint-ventures, desde que respeitem as regras e os processos públicos. Jungmann afirma que “isso é aberto para todos, australianos, canadenses, chineses, peruanos… até o Afeganistão”.

Entretanto, diante da crise diplomática, analistas alertam para os riscos de uma negociação precipitada. Ronaldo Carmona, professor da Escola Superior de Guerra, lembra que o acesso a esses minérios tem sido usado pelos EUA em outras negociações, como com a Ucrânia. “Não é o caso do Brasil aceitar um acordo desfavorável. A gestão dos minerais críticos é questão de segurança nacional”, pontua.

O consultor Luís Fernando Madella acredita que incluir o tema nas negociações pode ser benéfico, mas exige firmeza. “Países que querem liderar em tecnologia, como os EUA e a China, precisam desses minerais. O Brasil precisa saber jogar esse xadrez com inteligência.”

Missão brasileira aos EUA

Em resposta ao movimento americano, o Ibram articula uma comitiva de empresários que viajará aos EUA entre setembro e outubro — após o recesso parlamentar e o fim do verão no hemisfério norte. O objetivo será sensibilizar o setor privado norte-americano a pressionar por uma negociação comercial mais equilibrada com o Brasil.

No xadrez geopolítico dos recursos naturais, o Brasil ocupa posição estratégica. Se souber negociar com prudência e visão de longo prazo, poderá transformar sua riqueza mineral não apenas em vantagem econômica, mas também em instrumento de soberania e desenvolvimento nacional.

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