Da tragédia de eloá ao atentado na rota: o drama da família pimentel reacende memórias de violência em são paulo e alagoas
Quase duas décadas após o cárcere que chocou o país, o tenente Ronickson Pimentel sobrevive a ataque a tiros no ABC Paulista; episódio resgata o passado do pai do oficial, ex-integrante da "Gangue Fardada" em Maceió.

Por Anderson Braga
A tentativa de homicídio contra o tenente da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) Ronickson Pimentel dos Santos, registrada no último sábado (27), em São Caetano do Sul (SP), trouxe novamente à tona uma história que, há quase duas décadas, mobilizou todo o Brasil. Desta vez, porém, o episódio também reacendeu em Alagoas lembranças de um passado que envolve a trajetória da família do oficial e um dos capítulos mais controversos da segurança pública alagoana.
Natural de Maceió, Ronickson deixou Alagoas ainda criança com a família para viver no ABC Paulista. Anos depois, seu nome ficou conhecido nacionalmente por ser o irmão mais velho de Eloá Cristina Pimentel, a adolescente assassinada em outubro de 2008 após permanecer mais de 100 horas em cárcere privado pelo ex-namorado, em um dos crimes de maior repercussão da história recente do país.
Após a tragédia familiar, Ronickson buscou na carreira militar o seu propósito. Primeiro, ingressou no Corpo de Fuzileiros Navais e, posteriormente, nas fileiras da Polícia Militar de São Paulo. Desde 2019, integra a ROTA, considerada a principal tropa de elite da corporação paulista.
No atentado ocorrido neste fim de semana, o oficial foi baleado na cabeça por criminosos que estavam em uma motocicleta. A principal linha de investigação da Polícia Civil paulista aponta para uma possível execução premeditada. Imagens de monitoramento indicam que os suspeitos monitoraram e acompanharam os deslocamentos do policial antes de efetuar o ataque.
Um sobrenome marcado pelo passado em Alagoas
Embora Ronickson tenha construído sua carreira com retidão e destaque em São Paulo, a árvore genealógica da família possui uma ligação histórica complexa com Alagoas.
Seu pai biológico, o ex-cabo da Polícia Militar Everaldo Pereira dos Santos que no Sudeste utilizava o nome de Everaldo Pimentel, foi acusado de integrar a organização criminosa que ficou conhecida como “Gangue Fardada”, um grupo formado por policiais militares investigados por homicídios, grupos de extermínio e roubos que aterrorizaram o estado de Alagoas nas décadas de 1980 e 1990.
Everaldo foi denunciado, entre outros crimes, pelo assassinato do delegado Ricardo Lessa e de seu motorista, ocorrido em 1991. Após permanecer foragido durante vários anos, ele foi localizado e preso em Maceió, em 2009. No mesmo ano, acabou condenado a mais de 33 anos de prisão pelo Tribunal do Júri de Alagoas. Durante todo o processo, o ex-cabo negou participação nos crimes e alegou ser vítima de perseguição política.
A ironia do destino: Foi justamente a intensa e exaustiva cobertura nacional do caso Eloá, em 2008, que permitiu às autoridades alagoanas identificar o paradeiro do ex-policial, que vivia sob identidade falsa em São Paulo. As imagens exibidas exaustivamente pela televisão durante o sequestro e após a morte da adolescente contribuíram diretamente para que ele fosse reconhecido pelas forças de segurança do Nordeste.
Coincidência histórica, mas sem ligação comprovada
Apesar da inevitável repercussão provocada pelo histórico familiar, as autoridades tratam os fatos com cautela. Não existe, até o momento, qualquer informação oficial ou indício que relacione a tentativa de homicídio sofrida pelo tenente Ronickson ao passado criminal atribuído ao seu pai ou aos antigos episódios envolvendo a Gangue Fardada em Alagoas.
As investigações conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo concentram-se estritamente na atividade profissional contemporânea do oficial. Por integrar uma unidade de elite que atua na linha de frente do combate às facções e ao crime organizado, o atentado é visto como uma provável retaliação ou ação direcionada devido à sua patente. A motivação exata ainda é apurada e nenhuma hipótese foi formalmente descartada.
O peso da crônica policial
A trajetória da família Pimentel reúne, de forma trágica e simétrica, alguns dos episódios mais marcantes da crônica policial brasileira. Em diferentes momentos, o sobrenome esteve ligado ao combate ao crime, à dor da perda familiar e também a investigações que marcaram a história da segurança pública de duas unidades da federação.
Agora, quase 18 anos após o assassinato de Eloá, Ronickson Pimentel volta ao centro da atenção nacional. Desta vez, na condição de vítima de um atentado que ainda desafia os investigadores paulistas. Enquanto a polícia trabalha para identificar os autores e esclarecer a motivação do crime, permanece sem comprovação qualquer elo entre o ataque e o histórico da família em Alagoas, um distanciamento necessário e compatível com as informações públicas e com os princípios do jornalismo responsável.




