Delegado-geral de Alagoas é alvo de operação da PF por suspeita de ligação com “Máfia dos Concursos”
Investigação aponta possível participação de Gustavo Xavier em esquema de fraudes em certames, com indícios baseados em delações e interceptações; Justiça autorizou buscas, mas negou prisão preventiva

Por Anderson Braga
O delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, tornou-se alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga um amplo esquema de fraudes em concursos públicos, conhecido como “Máfia dos Concursos”, com base na cidade de Patos, no Sertão da Paraíba. A ação foi deflagrada na última terça-feira (17), com o cumprimento de mandados judiciais nos estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas.
De acordo com a decisão judicial, o chefe da corporação é suspeito de manter ligação com a organização criminosa e de exercer pressão sobre os líderes do grupo para garantir vantagens ilícitas, incluindo a aprovação de familiares em certames públicos. Apesar de o Ministério Público Federal da Paraíba (MPF-PB) ter solicitado a prisão preventiva do delegado, o juiz responsável pelo caso entendeu que, neste momento, os indícios reunidos são insuficientes para a medida mais gravosa, autorizando apenas mandado de busca e apreensão.
A investigação tem como base depoimentos de colaboradores premiados e interceptações telefônicas. Entre os delatores está Thyago de Andrade, apontado como líder do esquema, e sua esposa, Laís Giselle, suspeita de atuar na operacionalização das fraudes. Em trechos do material analisado pelo MPF, há relatos de que um indivíduo identificado como “Delegado Xavier” teria coagido integrantes da organização a fraudar concursos em benefício de seus aliados.
Outro ponto destacado na decisão judicial indica que o delegado-geral teria utilizado sua posição institucional para influenciar diretamente as ações do grupo criminoso. Segundo os autos, a suposta interferência resultou na aprovação fraudulenta de pessoas próximas, incluindo a esposa, Aially Soares, no Concurso Nacional Unificado para o cargo de auditor fiscal, e o irmão, Mércio Xavier, no concurso do Banco do Brasil, em 2023.
Ainda conforme a investigação, também teriam sido beneficiados aliados do delegado, como Anacleide Ferreira Feitosa, esposa de Eudson Matos — apontado como interlocutor de Xavier dentro da organização criminosa. Matos, policial civil de Alagoas, está preso desde 2024.
Outro nome citado no processo é o do policial civil Ramon Izidoro Soares Alves, que atualmente exerce mandato de vereador em Arapiraca. Contra ele, a Justiça Federal autorizou medidas como quebra de sigilo telemático, interceptação telefônica e busca e apreensão, diante de indícios de participação ativa no esquema.
A decisão também determinou a prisão preventiva de outros investigados, identificados como Dárcio, conhecido como “Dadá Meu Frango”, e Flávio Luciano, apelidado de “Panda/7777”. Segundo a Justiça, ambos teriam atuação direta na fraude de concursos, incluindo envio de respostas durante provas e compartilhamento de gabaritos, evidenciando risco de continuidade criminosa.
Entre os alvos da operação está ainda um servidor do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), Waldir Luiz de Araújo Gomes, identificado como “Mister M”. Ele é apontado como peça-chave no esquema, atuando como coordenador de locais de prova, o que lhe permitia acessar previamente os exames e repassá-los ao grupo. Contra ele foram autorizadas medidas cautelares, mas não houve decretação de prisão.
As investigações da Polícia Federal revelam que a organização criminosa atuava há mais de uma década, com um sofisticado sistema de fraudes que incluía uso de dublês, pontos eletrônicos implantados cirurgicamente e comunicação em tempo real durante as provas. O grupo cobrava valores que podiam chegar a R$ 500 mil por vaga, aceitando diferentes formas de pagamento, como dinheiro, veículos, ouro e até serviços.
Segundo a PF, o esquema alcançou concursos de grande relevância nacional, incluindo certames da Polícia Federal, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, além de instituições como a Universidade Federal da Paraíba e o próprio Concurso Nacional Unificado.
Procurada, a Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) informou que só irá se pronunciar oficialmente após ser formalmente notificada sobre o caso.




