Brasil/MundoDestaquesPolícia

Saiba quem é quem nos núcleos de atuação da rede suspeita de práticas criminosas de Daniel Vorcaro

Investigação da PF aponta divisão de tarefas entre suposto núcleo financeiro, operacional e de inteligência, com ex-integrantes de órgãos públicos e pagamentos milionários para monitoramento e intimidação de adversários

Por O Globo

A terceira fase da Operação Compliance Zero, que levou novamente à prisão o banqueiro Daniel Vorcaro, revelou a estrutura e os personagens centrais de uma rede suspeita de atuar como uma espécie de milícia privada para vigiar, intimidar e levantar informações sigilosas sobre desafetos do empresário. Segundo a Polícia Federal, o grupo, apelidado de “A Turma”, seria dividido em núcleos com funções específicas, envolvendo desde articulação financeira e repasse de recursos até coordenação operacional, execução de ameaças e acesso indevido a sistemas restritos de órgãos como a própria PF, o Ministério Público Federal e bases internacionais.

Apontado como líder da estrutura, Daniel Vorcaro teria contado com o cunhado, o empresário e pastor Fabiano Zettel, no núcleo financeiro; com Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, na coordenação operacional das ameaças; e com o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, além de ex-integrantes de órgãos públicos, na execução de monitoramentos e acessos indevidos a sistemas restritos.

A nova prisão ocorreu na terceira fase da Operação Compliance Zero, a primeira autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que se tornou relator do caso no mês passado, no lugar de Dias Toffoli.

Núcleos de atuação — Foto: Editoria de Arte

Pouco mais de três meses após deixar a prisão, Vorcaro voltou a ser detido na quarta-feira após a Polícia Federal (PF) apontar a atuação de uma rede suspeita de monitorar e planejar ações violentas contra pessoas que ele considerava adversários. A investigação apura possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão a sistemas oficiais da PF e de outros órgãos de investigação.

Corrupção institucional — Foto: Editoria de Arte

Ainda na quarta, Vorcaro e Zettel foram transferidos da Superintendência da PF em São Paulo para o Centro de Detenção Provisória (CDP) II de Guarulhos, na região metropolitana da capital.

‘Calar voz da imprensa’

 

Na decisão que mandou prender Vorcaro, André Mendonça afirmou haver indícios de que o banqueiro determinou que se forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para “prejudicar violentamente” o colunista do GLOBO Lauro Jardim. O objetivo, diz o ministro, era, a partir do episódio, “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro revelam que o banqueiro participava de um grupo chamado “A Turma”, no qual foi discutida uma estratégia para simular um assalto e atacar Lauro Jardim.

Nos diálogos encontrados pela PF, Vorcaro afirma que seria necessário colocar pessoas para seguir o colunista do GLOBO e chega a mencionar a possibilidade de agredi-lo em um suposto assalto para intimidá-lo. Nas mensagens reproduzidas na decisão de Mendonça, o banqueiro teria dado autorização para que a ação fosse executada contra o jornalista. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, escreveu Vorcaro, segundo transcrição feita pela PF. A tentativa de intimidação revelada na quarta gerou imediata reação de entidades (leia mais na página 8).

As mensagens apontam que o agressor seria Mourão. Segundo a investigação, ele seria responsável pela coordenação operacional de atividades de vigilância, levantamento de informações e monitoramento de pessoas ligadas a investigações ou críticas ao Master.

De acordo com os investigadores, Mourão também realizava consultas em sistemas restritos de órgãos públicos, utilizando credenciais de terceiros para acessar bases de dados ligadas a instituições de segurança e investigação. A Polícia Federal afirma que houve acessos indevidos a sistemas da própria PF, do Ministério Público Federal e até a bases internacionais, como FBI e Interpol.

Segundo a investigação, Vorcaro mantinha a estrutura de vigilância e de “grave ameaça por uma espécie de milícia privada”, o grupo “A Turma”, que era destinado à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação. A polícia apontou que o banqueiro dava instruções para monitorar e agredir pessoas que considerava como desafeto ou adversário.

O grupo reunia personagens com diferentes perfis e funções. Entre os participantes estavam um ex-diretor do Banco Central, um ex-chefe de departamento da mesma instituição, um policial civil aposentado, apontado como responsável por executar ações de caráter miliciano, além de Zettel, cunhado de Vorcaro. De acordo com a decisão de Mendonça, cabia a Mourão coordenar a execução das atividades e repassar ordens atribuídas ao banqueiro.

Os investigadores também identificaram indícios de pagamentos regulares a Mourão. Segundo as mensagens analisadas pela PF, ele teria recebido cerca de R$ 1 milhão por mês, valor que seria repassado por Zettel em nome de Daniel Vorcaro e, posteriormente, dividido entre integrantes da estrutura.

Em outra mensagem interceptada pela PF, Vorcaro diz a Mourão para “dar um sacode” num chefe de cozinha ligado a um ex-funcionário. Em outra, o banqueiro pede para “moer” uma empregada que o estaria ameaçando. “Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda”, diz. Mourão, então, pergunta: “O que é para fazer?”. Ele responde: “Puxa endereço tudo”.

Sequestro de bens

 

No início da manhã de quarta, a PF cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais. Também foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e sequestro e bloqueio de bens, no montante de até R$ 22 bilhões, “com o objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados ao grupo investigado e preservar valores potencialmente relacionados às práticas ilícitas apuradas”, informou a PF.

A defesa de Vorcaro disse que o ex-banqueiro não obstruiu a Justiça no caso Master e que colaborou com as investigações. Ainda segundo seus advogados, ele afirmou, ao ser preso, que “jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto” e que o fez “em tom de desabafo, em privado”. Já o advogado de Zettel disse que não teve acesso aos autos, mas que seu cliente “está à inteira disposição das autoridades”. Os advogados dos demais citados não comentaram.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo